
A casa era majestosa. Não parecia pertencer à dona Izabel. Ela ainda não se habituara àquele lugar luxuoso e a ser uma senhora da sociedade – nunca se tornaria uma, pobre mulher. A vida não lhe preparara para uma biografia melhor. Stella soube assim que chegou ali. Mas entrou silenciosa pela imensa cozinha. Não quis comer. Sequer poderia. Seu estômago estava triste. Depois de tomar uma xícara de café que queimou sua garganta, seguiu calada para o pequeno quarto alojado nos fundos. E que não possuía um sinal do esplendor da casa. Dona Izabel chegou a oferecer-lhe um dos quartos da mansão. Não aceitou. Preferiu a solidão reconfortante daquele quartinho mofado e vazio. Entrou receosa. Acomodou-se e ficou ali, sentada na cama, por tempo indeterminado, olhando para as paredes desocupadas, tentando não pensar. Não conseguiu. Impossível não pensar. Impossível não doer. Era a primeira vez que saía de perto de sua família. Estava só. Em um lugar distante, destelhado, incolor. E com a missão de uma vida que ainda não era sua. Será que um dia seria? A idéia a envolveu. Arrepiou os pêlos de seu braço. Tentou chorar. Quem sabe assim escorro de mim esse vácuo de dor? Não, não vou chorar. Não vou gritar. Não vou sofrer. Vou sobreviver. Vou viver. Deitou-se na cama do canto. Fechou os olhos. E, apesar de não dormir, só os abriu no dia seguinte, com a luz alaranjada entranto pela janela, avisando que a vida continuava. Foi quando sentiu, por um segundo congelante, que poderia não estar sozinha ali. Estremesceu. Mas não disse nada a ningém. Pelo menos por enquanto.